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  • 08/19/16--03:54: Fascismos nossos de cada dia

  • “Todos somos fascistas”.
    “Ei! Pera ae! Eu não!” Você diz. E eu reafirmo que sim, somos. A diferença está em que não matamos (ainda) por causa de uma (nossa) ideologia.
    Toda vez que você quer convencer o outro de sua verdade, estilo, gosto, preferência, valor, empurrando goela abaixo no outro, você está se comportando como um fascista.
    O que está por trás de toda tentativa de imposição (convencimento) é a pretensa (arrogância) de que sabemos o que é o melhor, não apenas para nós, mas para os outros. E isto, desde crenças religiosas, passando por valores, e até gosto.
    Nesse sentido, pense um pouco em sua vida cotidiana, em suas relações com outras pessoas, e repare, que (quase) a todo momento, você tenta, persuadir o outro do que é bom para (você) ele – como também, sempre há pessoas que lhe constrangem aceitar o que ela acha que é melhor para você.
    Aqui, mas do que nunca, somos totalmente autoreferentes: partimos de nós, de nossa experiência de vida, de nossas preferências, de nossas inclinações, de nossos afetos, desejos, pensamentos, para aconselhar, opinar, indicar e até “mandar” de forma sutil.
    Lembrando que aqui, não está em jogo a questão de apenas ser rude, grosso, de querer impor ao outro a força a sua opinião, mas antes, de querer que o outro queira o que você quer, que ele goste do que você gosta, que ele pense o que e como você pense, mesmo que ainda seja por amor – este motivo último, talvez seja o pior, pois quando amamos, ai queremos porque queremos, custe o que custar, que o outro, amado por nós, aceite o que nós queremos e achamos ser para ele o melhor.
    O "pequeno" detalhe é que ele só não sabe que você sabe, o que é melhor para ele - é como se o "espírito" de nossa mãe, se apoderasse do outro (ou, de nós), anulando nossa vontade, impondo-se a dele (ou nossa), como se disse "eu sei o que é bom e que é ruim" pra você.

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    Penso que a liberdade “verdadeira” - no sentido de não ser ilusória, autoenganosa – passa pela tomada de consciência de que somos, em um certo nível, “escravos”.
    Parece paradoxal (e, é), mas aqui, a grande virada de "chave", está em reconhecer nossos próprios limites, nossas próprias amarras, e assim, podermos verdadeiramente agir, dentro dos limites do nosso próprio "cárcere".
    Posso aqui citar, inúmeros exemplos de prisões: somos prisioneiros de nossos próprios afetos - não se escolhe não amar que você ama; somos prisioneiros de nossa biologia – mesmo que queiramos, não podemos, por mera decisão (e sem equipamento) voar, pois nossa constituição anatômica não permite; psicanaliticamente falando, somos prisioneiros do nosso inconsciente – fazemos coisas alegando ser por um motivo, mas inconscientemente, fazemos por outro; prisioneiros da nossa situação socioeconômica – posso desejar (e fazer planos) de morar em Paris, mas se for pobre e estiver desempregado, não posso ir; prisioneiros das nossas leis morais – por mais, que às vezes, possa querer descer a “lenha” em uma pessoa que me irrita, sei que não devo (e não “posso”) fazer, pois sofrerem punição; enfim, os exemplos são inúmeros.
    Inclusive, somos prisioneiros de nossas próprias escolhas: podemos ser "livres" - num certo sentido bem restrito da palavra - para escolhermos, mas não somos livres para escolher o que queremos ou não colher das suas inevitáveis (e incontroláveis) consequências.
    Mas ai você pode me perguntar: já entendi perfeitamente que não somos tão livres assim como imaginava, pelo contrário, somos e muito, presos, mas onde é que entra a liberdade ai?
    Respondo dizendo que, dentro dos limites impostos – pela sociedade, vida, religião, , circunstâncias – podemos agir com certa liberdade:
    não posso voar, então invento meios de poder voar; não posso agir contra um afeto, então uso outro afeto mais forte para contrapor o outro afeto; posso não escolher como e se serei afetado pelo outro, mas posso escolher como vou reagir a essa afetação; posso não ter dinheiro no momento para morar em Paris, mas posso fazer planos de um dia poder ir lá morar ou de viajar para conhecer; e etc.
    Portanto, não posso escolher as escolhas pelas quais posso escolher, mas posso escolher dentre as escolhas que irão surgindo no meu caminho, qual escolha quero fazer.
    Se me é "dado" escolher entre "A" e "B", somente posso escolher entre "A" e "B": não tenho como criar uma escolha que não existe como possibilidade para escolher.
    Enfim: quanto mais tenho consciência das prisões que me prendem, mais aumenta minhas possibilidades de ter um pouco mais de liberdade para me mover dentro dela. Só quem conhece seus próprios limites, suas próprias possibilidades, é que tem mais chance de ser (um pouco) livre.

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    "A religião está condenada a extinção", quem nunca já ouviu este tipo de frase?
    Será possível mesmo, chegarmos ao ponto de acabarmos de vez com a religião no mundo? Ou será isto, só mais um daqueles sonhos (delirantes) "messiânicos" dos céticos, ateus, humanistas e afins? - de todos aqueles que culpam a religião por todo mal e atraso cientifico no mundo.
    Penso que pode ser justamente o contrário: segundo dados, a porcentagem de filhos por mulheres religiosas - principalmente as fundamentalistas (as mais "fanáticas" por assim dizer) - é 2,1 contra (incríveis) 0,5 das mulheres ditas seculares - sem religião.
    O que isto significa? Que se continuarmos nesse ritmo, a religião será, não somente mantida, como inevitavelmente, crescerá em grande escala - as mulheradas seculares podem transar mais (será?), gozarem mais (as vezes desconfio de que seja o contrário), mas na hora de terem filhos, são as religiosas que sobressaem.
    As religiões agradecem ao pensamento (pós) moderno por toda forma de pensamento (crença) - seja pela defesa do aborto, seja pela emancipação da mulher, seja pela critica a família entre outros - que de alguma forma contribui para a diminuição de filhos dos não religiosos.
    Afinal, pra quê ter (constituir) família não é mesmo? - antes que me pergunte, sim, estou sendo sarcástico.

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  • 08/26/16--05:29: Por um mundo melhor?

  • Vou chegar "dando" logo uma "voadora" com os dois "pés" no "peito": arrisco dizer que toda ideologia - não importa qual seja, o que anuncia, e nem porque anuncia - de "Um mundo melhor"é uma falácia desonesta e intolerante.
    "Falácia" porque parte de algo "individual" para o "universal", de uma "minoria" privilegiada, dominadora - que auto-intitulam-se "autoridade", "especialista" de uma vida "melhor", de uma suposta exclusividade de "qualidade de vida" - para uma "maioria" desfavorecida, dominada, massa de manobra.
    "Desonestidade" porque, mesmo sabendo disso, grande parte dos "intelectuais", "vendem" a suposta ideia de um "mundo melhor", usando este tipo de "ideologia", não somente como prerrogativa de saberem o que é melhor para todos - o que coloca "todo mundo" num mesmo "saco" - detendo se assim, sutilmente, o poder através do "discurso" de uma "qualidade (padronizada) de vida", como também, de passarem uma imagem de "bonzinhos", gente do "bem".
    Isto porque, vende muito bem - basta olhar o sucesso dos livros de auto-ajuda. Dá ibope - cara "legal", porque fala o que o povo quer ouvir.
    E, "intolerância", porque transformam um suposto ideal, em "regra", em "lei", num "padrão" de vida imposto como "bom", "saudável", "higiênico" e "humano". Os que não aderem, estão condenados a serem mal visto, tidos como pessoas de "mal" hábitos, de "atrasados".
    Nesse sentido, deixamos de crer em Deus, nas religiões, nas crenças, e passamos a ter Fé na ciência, na medicina, na razão.
    Deixamos de confessar ao padre, de ouvir o sermão do pastor, de meditar com o sacerdote, para seguir a "orientação" (leia-se "obediência") ao nutricionista, escutando os conselhos do médico, idolatrando os gurus da auto-ajuda.
    Prefiro como companhia os profetas do passado, corajosos, sem "papas na língua", que gritavam nas ruas, denunciando os pecados do povo, inclusive dos Reis, a esses falsos "mestres" de uma vida "sustentável", de uma maior "qualidade de vida".
    Prefiro a companhia das grandes tradições milenares das religiões mais antigas, que ensinavam o quanto o humano é miserável pecador, do que ler uma pagina se quer, de um livro de auto-ajuda.
    Enfim, prefiro ser "anti" (social, ideologia, dogmas, padrões universais) do que ser desonesto comigo mesmo, contrário a minha consciência, e meu jeito de caminhar na e pela vida.
    Prefiro me assentar a "roda dos escarnecedores, beberrões, ímpios, sujos, viciados, deprimidos" - como Jesus que foi acusador de andar com prostitutas e ladrões -, pois estes são autênticos (e tem consciência) de suas misérias existências, e não irão querer jamais, empurrar em minha "goela abaixo", seus estilos de uma suposta qualidade de vida - pois eles reconhecem, que os seus caminhos não são indicados para se trilhar, se relacionando comigo, não de cima de um "pedestal", desqualificando minha forma de viver a vida, mas antes, respeitando e até legitimando meus próprios caminhos.

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    "É preciso saber viver", diz uma música do grupo musical "Titãs", que carrega em seu título, essa mesma frase.
    "E qual é o problema dessa música?", talvez você pode me perguntar. E eu respondo: Com a música nada! Pelo contrário, gosto muito da música e dos "Titãs".
    A bem da verdade, a música em questão é muito bonita, com suas letras poéticas e reflexivas. Mas, na parte em que fala, que é necessário saber viver, embora o contexto dessa música dêe sentido a frase, penso que éjustamente o oposto: é preciso saber MORRER.
    Aliás: saber morrer não exatamente, pois para isto não precisamos de nenhum tipo de aprendizado e esforço: Como diz uma frase popular "para morrer, basta estar vivo!" - e isto, em todos os sentidos.
    Mas sim, saber COMO morrer - claro, partindo do princípio de que a verdadeira arte na vida, não é apenas (como) viver, mas (também) em como morrer: aceitando x negando; conscientizando x alienando-se; resignando x lutando; ou, um pouco de um, um pouco de outro.
    E, por quê "saber morrer"? Acompanhe comigo, este meu raciocínio: ora, se pra cada dia vivido é igualmente um dia a menos para se viver, se viver é um constante processo lento e gradual de morte, se nosso corpo e vida, vão declinando ao passar do anos, logo, segue-se que, saber viver é saber (também) morrer.
    Mas como saber "morrer"? Essa é a grande questão (e que vale a pena) a ser respondida, a meu ver. Nesse sentido, compete a cada um encontrar/fazer sua própria resposta.
    "Personalização de sentido"é o que proponho. Uma forma singular de cada pessoa fazer da sua vida única. Mesmo que haja caminhos "determinados" - uns chamaram de "Deus", outros, de "Acaso", outros ainda de "Destino" - ainda sim é possível "personaliza", por mais "mínimo" que seja nossas ações e escolhas.
    Nesse sentido, a frase que mais sintetizaria esse meu texto é o famoso pensamento Sartreano de que "não importa o que a vida - com sua biologia, psiquismo, aleatoriedade, contingências, acasos, divindades, condições socioeconômicas, sócio-históricas e etc. - fez de você, o importante mesmo é o que você faz (e fará) com o que a vida fez de você".
    Portanto, é preciso saber viver/morrer "personalizadamente", pois se tenho uma coisa que ninguém fará no teu lugar, por você, é viver/morrer.

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    ATENÇÃO, ATENÇÃO: Pensar demais antes de fazer qualquer escolha, pode "complicar" ainda mais, a já complicada escolha, como causar uma baita dor de cabeça!
    Frases do tipo: "Meus Deus! Preciso tomar uma decisão, mas qual decisão devo tomar?", "Quanto mais penso, mais fica difícil escolher. Por quê hein?". São escutadas diversas vezes.
    Quem nunca esteve alguma vez nessa situação, de se perguntar, por qual escolha fazer, por qual caminho trilhar, por qual decisão tomar? Penso que todos nós já experimentamos alguma vez, em algum grau os conflitos de toda escolha.
    O que ocorre é que, quanto maior lucidez tivermos (usarmos) na hora de decidir, quanto maior for a nossa consciência dos conflitos que acarretam o ato de escolher, quanto mais pensarmos nas consequências das escolhas, maior será a complexidade e dificuldade para escolher, decidir na vida.
    Nesse sentido, se gastarmos tempo, energia, pensando e calculando, as infinitas possibilidades e seus inúmeros desdobramentos, podemos nunca "sair" do lugar, além de ter bastante "dor de cabeça", e isto, tanto no sentido "simbólico", como no sentido "literal"
    Pois para cada uma escolha que fazemos, uma porção de outras são negadas, descartadas, jogadas fora. Para cada "sim" dado, um sem números de "não" incluídos no "pacote" do "sim" vem juntos.
    Some-se a isso, o fato de que apenas sabemos as consequências "negativas" das decisões tomadas, dos percalços dos caminhos já trilhados por nós, sendo todos os outros, com suas probabilidades, sempre vistas somente seus pontos positivo. O que pode gerar em nós, a ilusão (injusta) de que escolhemos errados.
    Exemplo: uma jovem opta por ser professora. Ao longo desse caminho escolhido, ela, investe em curso, conhece pessoas, e tem oportunidades. Sendo que durante o caminho, ela vai colher coisas boas e ruins - como em toda escolha - mas, fica a pensar e até desejar, outra profissão, se vendo nessa outra escolha. Vendo nela só consequências boas.
    Qual a sensação que ela passa a ter da sua escolha real? Que se equivocou, que não era bem o que ela queria, que se pudesse, faria outro curso, para trabalhar em outra profissão.
    Dai podemos concluir, que toda escolha pressupõe a não escolha de todo o restante de opções. Ou seja, escolher trás angústia, pela complexidade e dificuldade que se é, de fazer escolhas, como também, por suas possíveis consequências.
    Enfim, quanto mais pensarmos em qual decisão devemos tomar, e em suas múltiplas consequências, as pessoas que serão afetadas, e de quais possibilidades teremos que abrir mão, mas difícil será para decidirmos, e muito mais ficaremos torcendo pra que as coisas tome seu próprio rumo, decidindo por nós - o que não deixa de ser uma "escolha", ainda que seja a "escolha" de não escolher, e portanto, de não (ou "fazer") fazer nada.

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    Sexo para além de todo esse marketing construído entorno da "teoria de gênero", do "politicamente correto" de dizer que é "escolha", "preferência" - e que deve ser apresentado às "opções" para a criança, ensinando-a sobre as "preferências" sexuais - penso que sexo é muito mais que uma simples questão de "gosto".
    Como se sexo fosse apenas uma escolha que se faz, igual a um daqueles "produtos" que compramos numa prateleira de supermercado, ou, como abrir a geladeira e optar entre um suco ou refrigerante.
    Sexo, para além desse "bla-bla-bla" de gosto que as "teorias de gêneros" das "ciências sociais" e alguns movimentos de GLBT querem empurrar "goela" abaixo na gente, é uma questão de CONDIÇÃO: a pessoa "nasce" e não se "torna" - claro que sempre há "exceções", como aquelas que devido alguma experiência traumática (abuso e violência sexual), como também, aquelas que gostam de uma "promiscuidade".
    Inclusive, o homossexualismo existe até no reino animal, ou seja, confirmando a hipótese de que o homossexualismo é tão natural como o ser hetero - por mais que os moralistas de plantão (religiosos em suas maiorias) queiram "provar" o contrário, pois se não, teriam que rever os primeiros capítulos do gênese, admitindo que Deus fez macho, fêmea e gay (lesbica).
    Enfim, sexo é "condição", estando para além de um mero "gosto", é desejo carnal, primitivo, fisiológico. Tesão incontrolável. Então, não se preocupe se tua filha gosta de jogar bola, brincar de carrinho, ou, se teu filho gosta (tem curiosidade) de bonecas, pois não será isto que o fará mais homem (ou gay) ou menos homem (ou gay).

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  • 08/26/16--05:33: "Eu sou, eu sou egoísta!"

  • Penso que o egoísmo é a grande base por excelência da maior parte do mal moral praticado no mundo.
    Explico: não é que o homem sempre pratique algum mal ao seu próximo por simples e puro prazer em ver o outro se dando mal - pode até ser, que de vez em quando, alguém pratique por puro prazer em fazer sofrer o outro sofrer, mas não é a "regra" geral.
    Antes, o humano busca para si todo bem possível – seja este “bem”, o prazer, a sensação de alívio, de alegria, de encontrar sentido, de bem-estar, de conseguir alguma vantagem, como até mesmo, de escapar de algum prejuízo, sofrimento e dor.
    Nesse sentido, Epicuro (filósofo grego) tinha razão ao dizer que o ser humano busca o prazer e foge da dor.
    Ou seja: ou buscamos em tudo que fazemos algum tipo de prazer, de sucesso, de felicidade ou, no mínimo, buscamos fugir da dor, sofrimento e punição.
    Entretanto, na vida, não conseguimos viver o tempo todo por cima da “carne fresca” (como diz um ditado popular). Ora estamos por cima, razoavelmente bem, e por isso, podemos dedicar-nos a fazermos o que desejamos, mas, ora estamos por “baixo”, mal, por assim dizer, e buscamos algum tipo de alivio ou compensação na dor, perda ou sofrimento.
    Por exemplo, pensemos na doença: quando estamos muito enfermos, não conseguimos pensar em satisfação dos nossos desejos, mas antes, nos ocupamos em como aliviar e sarar nossa doença.
    Mas, voltando para a idéia lá no começo do texto, de que todo mal moral (ou em sua maior parte) advém de sermos egoístas. Acompanhe comigo meu raciocínio, usando dois outra grandes pensadores da humanidade:
    Se somos regidos pelo “principio do prazer” (Freud, pai da psicanálise), mas ao mesmo tempo temos medo (Hobbes, filósofo) de sofrer, de sermos punidos, logo segue, que tudo que fazemos, fazemos para alcançar algum sentido, alegria ou prazer, ou para escapar de algum tipo de sofrimento.
    "Mas onde entra o mal", você pode estar se perguntando. Respondo: tudo que atravessa nosso caminho, que sentimos como ameaça de atrapalhar, como impedimento de nosso prazer, desejo e objetivo, não hesitamos de tirar do nosso caminho, porém, desde que não venhamos nos dar mal (medo de perder ou sofrer alguma consequência).
    Em outras palavras: tudo no mundo é “meio”, “instrumento”, “ponte”, para alcançarmos ou o nosso bem, prazer, felicidade e sentido, ou para escaparmos, nos esquivarmos de represálias, de castigos, punições e terríveis consequências.
    E isto, desde uma esmola que damos a um mendigo – pelo prazer de nos sentirmos (ser do) “bem”, ou por cumprir uma vontade que acreditamos ser “divina”, ou por alguma recompensa seja espiritual ou até um simples prazer por não estarmos na mesma situação – chegando até em casos extremos, onde nossa vida, nosso interesse, está, por assim dizer, na “reta”.
    Como exemplo (ou “lição de casa”) deixo para reflexão, qualquer filme sobre o nazismo: lá, veremos, julgaremos e odiaremos não somente aqueles (alemães) que praticaram o mal (extermínio de judeus, gays e outros grupos), mas também, o cidadão comum, que por medo de ser punido e/ou por desejo de receber algum benefício, colaborava com o nazismo, entregando aqueles, que eles procuravam matar.
    Ou seja, se formos honestos, nos veremos nessas situações "limites", nós, nossa família, as pessoas que amamos e o restante do mundo, onde entre entregar, colaborando com o nazismo, salvando assim, nossa pele, como da nossa família ou nos arriscarmos (e arriscarmos nossa família) a proteger os perseguidos pelo nazismo, optamos quase sempre, pela primeira atitude.
    No fundo, no fundo, só fazemos o “bem” com total entrega e intensidade, para aqueles que amamos, justamente porque os amamos, ou seja, por puro egoísmo, ainda que seja o egoísmo de amar – amamos aqueles que são nossos.

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    O Apóstolo Paulo pra mim, é de longe, não somente o maior expoente do Cristianismo, como seu maior defensor, pois podemos perceber, na frase dita por ele, que o "evangelho é loucura para os gregos", sendo os gregos, o berço da sabedoria e da civilização ocidental, que ele aqui estava protegendo o cristianismo com um dos seus maiores argumentos sofistas: os gregos, mesmo com toda sabedoria, não são capazes de entender a "lógica" do evangelho, e portanto, o erro esta neles, que usam o meio errado (razão) para se chegar a Cristo - detalhe: Para falar isto ele usou a sua própria razão, ou seja, partiu da razão, usando a razão para anular a própria razão!
    Com isso, Paulo brinda o "seu" Cristo de qualquer argumento, por mais racional e poderoso contrário a fé cristã que possa ser - Paulo também foi o maior sistematizador da Fé cristã, e o principal responsável por adaptar o platonismo (filosofia de Platão) ao evangelho, construindo um edifício filosófico-teológico irretocável.
    Conclui, que Paulo foi o maior e mais completo cristão (o "cara") de todos! O grande mestre e criador do cristianismo, que reunia em si, os principais atributos de um grande líder e fundador de qualquer religião, a saber: Construtor/Criador (sistematizou a fé cristã usando o platonismo); Defensor (elaborou defensas inabaláveis da fé cristã); Testemunha do "poder" de "seu" Cristo, que o transformou de "perseguidor a perseguido"; e seu maior propagador (graças a ele, o "evangelho" foi anunciado aos "gentios").

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    Um dos grandes enigmas da existência pra mim, é a bondade (ou , o “bem”, se preferirem): existe mesmo, como realidade concreta no mundo ou é apenas uma invenção humana, mera abstração, apenas uma palavra criada em nosso vocabulário?
    Acho risível, beirando a uma explicação de “jardim de infância”, dizer, simploriamente, que o mal é pura e simplesmente o contrário do bem, pois tenho a sensação de que o mal, ah, o mal, o conhecemos tão clara, inequívoca e objetivamente, que nos soa até muito familiar – diria eu, familiar até “demais”.
    Bastar sair de casa, conversar com um vizinho, ouvir rádio, assistir TV e acessar a internet para ver, de maneira escancarada, todo o mal, que como um vírus, nos contamina, se alastrando pelos quatro cantos da terra, se estendendo até os seres humanos.
    Uma prova cabal e corriqueira de maldade é olharmos para uma criança “inocente”, “pura”: nela, a maldade impera em toda sua “crueza” - no sentido, de “crua”, sem a polidez (hipocrisia?) social, na sua ainda “indomável” e “indomesticável”, “natureza” “selvagem”.
    Ou seja: a maldade na criança é uma maldade “pura”, sem a sofisticação "maquiavélica" do adulto – a criança não “pensa” nos prós e contras, calculando as vantagens e desvantagens de suas ações, como por exemplo, de não dividir o brinquedo ou lanche com outra criança, como nós adultos.
    Comparo o ato de bondade a um ato de heroísmo, de pura coragem: praticar o bem “sem olhar a quem” ou o que receberá em troca, é um verdadeiro gesto sublime de coragem num mundo onde reina a covardia e o mal, onde um, alimenta o outro, e vice-versa.
    A bem da verdade, penso, que o verdadeiro e maior milagre em nosso mundo, é o de encontrarmos, e assim, podermos tranquilamente afirmar sem sombra de dúvida, o que é o bem, a bondade, e o amor totalmente desinteressado.
    Tanto é, que não há dúvidas de que, quando tal gesto se manifestar diante de nós, saberemos que estamos diante de um daqueles milagres raríssimos em nosso mundo, daqueles momentos únicos, que devem ser eternizados.
    Enfim, o mal, este conheço muito bem, tanto dentro como fora de mim, mas agora, o bem, há, este tem sérias dúvidas se existe mesmo.
    Como diria o Apostolo Paulo “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço". Por isso, rasgo minha roupa, bato no meu peito, e grito “miserável homem que sou, quem me livrará do corpo dessa morte”.

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  • 08/26/16--05:37: "Eu te amo?"

  • Quando dizemos “eu te amo”, há quem (ou, o que) realmente amamos? Dito de outra forma: quando declaramos nosso amor, a quem (ou, o que) nos dirigimos?
    Lendo Freud (fundador da psicanálise), Nietzsche (filósofo) e Pascal (filósofo cristão), - só “peso pesados” - cheguei alguns possíveis “palpites”, que talvez, desagradem alguns “românticos” de plantão – se estiver amando então, vixi, nem se fala: pode acabar ficando “chateado” comigo.
    Primeira possibilidade (baseado em Pascal): amamos nunca a pessoa "em si", sua "essência", por assim dizer – ou como diz alguns: (mentirosos?) o “eu” "interior" da pessoa – mas sim os seus "atributos": "gostosa"– ela me excita; "bonita"– ela me encanta; "carinhosa" e "atenciosa"– ela me cativa; "fiel" e "companheira"– ela ganhou minha confiança e admiração; e assim, podemos (se procurarmos) encontrar mais atributos.
    O que fica evidente aqui, no pensamento pascaliano sobre esse aspecto do amor, é que amamos os "atributos" da pessoa, que na maioria das vezes, nos toca, nos afeta, o que segundo Espinosa (outro "peso""pesado") se dá, por sermos seres movidos por afetos, nos relacionando, em um mundo que constantemente nos afeta – seja causando alegria (aumento da potência de agir), seja nos entristecendo (diminuição da potência de agir).
    Segunda possibilidade (baseado em Nietzsche): amamos nunca a pessoa, mas os "sentimentos" de amor, ou seja, não gostamos diretamente da pessoa, mas da sensação agradável, prazerosa que ela nos provoca, sendo assim, gostamos de "gostar", amamos "amar".
    Talvez aqui, você possa me perguntar: se é assim, porque não abandonamos a pessoa na primeira irritação ou tristeza que ela nos cause?
    Talvez, porque sabemos que foi um episódio isolado de tristeza provocado por nosso amado (ou amada)? Sendo que no fundo, sabemos, esperamos e até acreditamos, que logo ele (ou ela) voltará nos alegrar?
    Agora, quando se torna recorrente o desagrado, a tristeza, as brigas, o amor pode acabar – ou na verdade, o que acaba é nossa fonte de amor, que passa a ser fonte de tristeza.
    Terceira possibilidade (baseado em Nietzsche): amamos porque acreditamos ou nos relacionamos como se o outro fosse nosso "objeto" de amor, ou seja, por puro egoísmo de podermos chamar de “meu” - "meu" filho; "meu" esposo (ou esposa); "meus" amigos; "meu" namorado (ou namorada); "meu" pai e "minha" mãe e etc.
    Amamos então porque é "nosso": "nossa" propriedade, "nosso" objeto - aqui, a palavra "minha conquista", nunca revelou tamanho desejo de "posse".
    Quarta, quinta e sexta possibilidades (baseado em Freud): amamos, não o outro, mas aquilo que vemos de nós refletido nele. Complicou? Então “descomplico”: amamos as qualidades que julgamos ter de nós no outro, que no fundo, são as nossas - aqui, não são os "opostos que se atraem", mas os "iguais".
    Amamos também (quinta) as qualidades que nós não temos, mas que o outro tem, e que portanto, preenche nossa falta de alguma forma. Exemplo: gostaria de ser muito intelectual, então arrumo um parceiro (ou parceira) intelectual que suprirá este meu desejo, sendo uma espécie de extensão nossa - onde "falhei" em ser, o outro "conseguiu".
    E, amamos (sexta) não o outro, mas um ideal que carregamos e projetamos no outro. Na verdade, amamos o ser "idealizado" e "fantasiado" por nós - o problema é que se idealizarmos muito o outro, ele pode (como irá) nos decepcionar, pois entre o ideal que imaginamos e a realidade do ser em "carne e osso" que se apresenta, há um abismo.
    Abro um parênteses aqui, pra dizer, que pode ser que haja o amor por carência. Neste caso, seria, talvez, uma espécie de amor “negativo”, marcado principalmente pela falta, pela necessidade de ter alguém, de ficar com alguém, mas não vou aprofundar nele. Apenas cito-o, como possibilidade.
    Para terminar: o que todas às definições têm em comum? 
    O fato de não amarmos alguém por ser este ser o “alguém”, ou dito de outra forma: não amamos ninguém por “ele mesmo” - por sua causa "própria". Ou seja, amamos (quase) tudo "na" ou "da" pessoa, menos a "pessoa".

    E isto, desde o amor por "condições"– amo ele por ser meu filho –, passando por seus "atributos"– amo sua inteligência, seu caráter, sua beleza, sua força, seu poder, suas poses – chegando até por "narcisismo"– amo ele porque vejo nele minha própria imagem (Narciso) refletida.
    E ae, com qual amor você tem amado os seus? Será que podemos amar com vários amores várias pessoas? Ou ainda: o tipo (escolha) de amor dependerá de nós? Deixo para tua reflexão, até porque, cansei de pensar (rss) por hoje.

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    Não adianta "chorar" com o que ei de dizer agora: Não, Deus não tem um “plano” para a tua vida, e nem você é especial para Deus, pro Universo, pra Natureza, pra Energia ou seja lá mais o que inventemos – e o Universo, lamento te informar, ele não conspira ao teu favor como mentem descaradamente os gurus da autoajuda - e como (pateticamente) queremos (precisamos?) desesperadamente acreditar.
    Inclusive, o cosmo, não somente não esta ao teu lado, como é completamente indiferente a você, aos teus problemas, a tua vida e ao que você faz dela - pode "espernear" a vontade: Nem eu e nem o universo damos a mínima pra seu "chilique" - sim, hoje eu to do "mal"(rsrss).
    E ai, vai encarar, mesmo assim a existência? Ou vai fingir que não sabe de nada, que não é com você, e nem que ao menos tem uma leve suspeita ou sensação de que a vida é você por você mesmo?
    De que tirando umas quatro ou cinco pessoas no máximo, você não faz diferença alguma pro mundo? Que o mundo inteiro esta completamente alheio a você? De que o mundo não para porque você esta sofrendo? De que não somente não tens importância em vida, como que depois da (tua) morte não haverá lembranças de você, porque os que lembram também, morreram e com elas o teu "nome", história, memória e existência será apagada pra sempre da terra?
    Peguei pesado demais agora né? rss mas isso pode ser pavoroso, terrível, (e, é) reconheço, mas pode ser também libertador: Podemos viver a vida sem aquele "peso", sem aquela cobrança obcecada (e infantil) de sucesso, de triunfo. Sem a mania (delirante) de grandeza, que torna o ser humano patético.
    Nesse sentido, somente levo a serio os trágicos (gregos) com sua visão trágica (realista?) da vida, do mundo, do ser humano. Prefiro a companhia de um Shakespeare, de um Dostoievski e suas "ácidas" e "indigestas" visões do humano como um animal que se debate em angústia de sua própria finitude, esmagado pelo peso da existência, do que um risível (e infatilizante) livro dos gurus da felicidade.
    Mas como eu sou "eu" e você é "você", fique a vontade com suas fantasias, com suas ilusões, com seus delírios de ser especial, de ser escolhido por Deus - ainda que seja pra sofrer miseravelmente -, de se achar importante, que o mundo chorará por sua morte, que se lembrará pra sempre de você.
    E os deuses se existirem, são como na clássica e sabia concepção grega: Deuses que no enfado de serem deuses, criou o humano para seu divertimento - como bobós na corte do Olimpo. Que no seus sadismos fez o homem consciente de sua miséria existencial e finitude, em um mundo cheio de sofrimentos.
    De fato: Viver não é coisa pra covarde. De uma de duas possibilidades: Ou somos corajosos - dai uma das maiores virtudes para os gregos ser a coragem - escolhendo viver a vida com coragem, mesmo em meio ao sofrimento real ou como possibilidade, ou então, somos ou nos tornamos, seres patéticos que acreditam ter o "rei" na barriga, que nasceu para o sucesso e a felicidade, enriquecendo assim, os gurus da auto-ajuda.

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  • 08/26/16--05:56: Quem é o anticristo?



  • Erra, e erra feio quem pensa que o maior inimigo dos evangélicos sejam os ateus. Nem mesmo os céticos, os questionadores, os seus críticos mais ferozes chegam se quer perto de ser o maior inimigo dos crentes. Também pensou errado, quem pensou ser as outras religiões o maior inimigo dos evangélicos.
    Sem dúvida, o maior de todos os inimigos, aquele que consegue por em "xeque" os crentes, desacreditando os mesmos, são... nada mais nada menos do que eles próprios!
    Isso mesmo que você leu. Os crentes com suas "crentices" acabam sendo seus próprios e maiores caluniadores, pois a "arma" mais destrutiva contra qualquer crença é EXPOR ELA AO RIDÍCULO.
    Nisso os crentes (principalmente os pentecostais e neopentecostais) são "mestres" em fazer: fazem da sua própria crença um "circo", um "espetáculo" de "show" de horrores.
    Coitados daqueles crentes que são sinceros em suas crenças: Paga literalmente o "mico" por causa dos seus "irmãos" sem noção.
    Por isso o "senhor" Google que "sabe" tudo, que é o "Mister M" do conhecimento, é de longe, o mais indicado para nos dizer quem é, afinal, o grande e temível ANTICRISTO, líder das crentices dos crentes. Veja o resultado da pesquisa no google para a palavra "anticristo" na foto abaixo.



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  • 10/19/16--10:16: Meu novo livro

  • Por: Marcio Alves

    O que dizer do meu livro? Que ele é "indigesto", "pessimista", "insano", "pesado" e "depressivo"? Talvez... porém, se ele é isto tudo, ele também é sensível, conflituoso, angustiante, e acima de tudo: "humano, demasiado humano"! Antes que você pergunte: sim, psicólogo também adoece, também sofre, também pode ter transtorno, também tem problema, e sabe por que? Porque psicólogo também é "gente" de carne e osso. Não somos robôs, não, não somos. Não somos máquinas, não, não somos. Nem muito menos super-homens (ou super-mulheres). Somos profissionais que lidamos diariamente com a saúde mental. Nossa matéria prima é o sofrimento humano. Mas não quer dizer que não podemos adoecer. E isto não faz de nós menos competente. Menos profissional. Menos psicólogo. Isto faz de nós humano como qualquer outro humano, que por sofrer (e não apenas estudar) podemos também escutar, acolher e respeitar o sofrimento do outro, pois afinal, antes e acima de tudo, somos "humanos, demasiados humanos".
    Segue link de um dos sites que é possível encontrar meu livro:

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    Título original: Carta a um Confrade

      

    Caro confrade Márcio


    Dias atrás me pediste para fazer uma resenha crítica de teu livro recém lançado ― “45 Dias de Pânico”. Confesso que me senti incapaz de realizar tal façanha, ante a impossibilidade de tratar de um assunto tão intrínseco subjetivo e altamente individual. Preferi, te escrever uma carta, ao estilo dos velhos tempos em que nem de longe imaginávamos o advento de um progresso tecnológico tão atraente como o da internet.


    Recebi teu livro por e-mail, e comecei a lê-lo aos poucos, para degustar melhor. Na ocasião, em uma mensagem postada no teu Face, falei que estava iniciando a leitura de tua passagem pelo “Vale da Sombra da Morte” ― expressão de grande valor metafórico e muito conhecida entre nós, que tivemos um passado não mui agradável pelos meandros da religião. Ressalte-se aqui, que os arquétipos religiosos plantados nos arquivos mais profundos de nossa psique são indeletáveis, e a todo momento, sem que percebamos, estão eles a enviar ressonâncias para o tempo presente.


    Como você bem sabe, a psicanálise jamais teria existido sem o pano de fundo dos símbolos e dogmas religiosos da tradição judaico-cristã, a qual, por sinal, é a base de toda a cultura do mundo ocidental. Os grandes expoentes da Psicanálise beberam dessa fonte inesgotável: Freud (seu herói era o Moisés retratado por Michelangelo) fez uma leitura partindo dos mitos judaicos, considerando a religião uma “ilusão infantil” ou neurose obsessiva(mas quem não tem um pouco dessa “loucura”? Se não fosse a tal da neurose nesse nosso mundo esquizóide, não existiria o artista, que é justamente aquele que consegue dar as suas experiências dolorosas um significado elevado para si e para os demais). Jung, brilhantemente aproximou sua nascente ciência da rica simbologia do Protestantismo (seu pai era um pastor protestante). Lacan, católico, por sua vez, conciliou Freud com a simbologia dos termos aparentemente ambíguos presentes nas histórias bíblicas, substituindo a palavra “Deus!” ou imago-deus de Jung, por “Grande Outro”.


    Logo na página 25 do teu livro, um insight, ou mesmo o sentimento “religa-re”(de natureza religiosa) creio eu, vindo dos obscuros porões do teu inconsciente, me prendeu a atenção, quando repetiste uma das frases mais contundentes do messias que os evangelhos relatam: “A Minha Alma está Angustiada até a Morte.


    Na página 75, para expressar a forte dimensão analógica de tua angústia como companheira inseparável (e não poderia ser diferente), recorreste as regiões abissais dos arquivos arquetípicos religiosos escondidos em tua psique: “...igual a Jesus disse do seu Pai nos evangelhos. Que Ele e o Pai (Deus) eram um.”


    Ainda sobre a desditosa e inseparável angústia, na página 89, eis que me deparo com uma ressonância poderosa do tempo em que eras pregador das Boas Novas: Por que Afinal Tenho Que Recorrer à Bíblia? Tu mesmo respondes de forma profunda, tanto do ponto de vista psicanalítico, quanto do ponto de vista teológico: ...porque ninguém em sã consciência deseja e vai ao encontro dela…, nem precisa mesmo…, ele é quem vem sempre ao nosso encontro.” O conteúdo do inconsciente é assim: nós não o escolhemos; ele vem a nós quando nos desarmamos.


    Perdão peço, porque em meio a descrição de tua enorme agonia, não pude evitar que a figura de Edir Macedo viesse a minha mente, quando li a expressão largamente usada e abusada no meio fundamentalista ― “Demônios da Insônia”, na página 95. Na ocasião lembrei-me de um texto por mim postado em junho de 2010 na C.P.F.G.: “Sobre Nossos Demônios Interiores”, de onde, para avivar a memória, retiro esse pequeno trecho:


    É nesse grande palco mental que o apóstolo Paulo denominou de “lugares celestiais”, que se trava a imaginária luta entre as forças divinas e diabólicas”  que rendeu 120 comentários. Dentre eles, ressalto a tua irretocável réplica: “Sendo assim, conhecemos um pouco do caráter do sujeito através da imagem que ele nutre de seu deus”.(Marcio)


    Na página 123, com o sub-título “Afinal o que Deus tem a Ver com Isso?” esboças uma reação (afinal, somos todos reativos). Continuando, fazes a seguinte afirmação (ou reação defensiva – Freud explica – rsrs): “Não acredito na existência de Deus! Acabou a minha fé em um Deus celeste.”


    Considero que quando afirmamos “sou ateu” estamos defensivamente a nos referir àquela parte obscura e recalcada de nós que nos incita a anular uma provocação, talvez vinda do inconsciente. Quando a provocação vem, seja de fora (de outro) ou interna, o sujeito ativa o mecanismo de negação. Quando a cobrança ou ameaça vem da esfera do inconsciente, o indivíduo passa a guerrear contra si mesmo. Freud, certa vez, disse que estamos fadados a perder no conflito com o Superego. O equilíbrio reside em fazer as pazes com essa imago-paterna-ameaçadora, tornando-a menos importunadora, nunca tentando desafiá-la ou destruí-la


    Sabemos que o que mais caracteriza o homem é a sua contradição ou ambivalência, como tentei passar no último ensaio do meu blog “Ensaios&Prosas”, que tem por título: “Homem, Teu Nome é Paradoxo!”. Do qual replico seu epílogo:


    "Quem livrará o nosso EU, do peso da Contradição?” Quem atentar para essa brilhante enunciação da dúbia alma humana realizada pelo apóstolo fundador do cristianismo, verá que ela está em perfeita consonância com o sujeito da psicanálise, que às avessas do jargão cartesiano 'penso, logo existo', abarca o Homem Paradoxal com esta emblemática frase:'Penso onde não sou; sou onde não penso'.”
     

    Olha lá o que colhi da paradoxalidade dos nossos afetos (advinda do polo que, devido certas circunstâncias, consideramos negativo) que a tua veia poética traduziu em forma de uma extraordinária prece:

    Meus Deus, como faz bem para minha alma tão sofrida e angustiada, ficar neste momento… ...olhando a tranquilidade, serenidade e paz do meu filho dormindo.” (Márcio  45 dias de Pânico  página 130)


    Jung, já bem avançado de idade, fez uma declaração autobiográfica que considero emblemática para o nosso tempo tão des-humano: “Não posso me referir aos meus relacionamentos mais íntimos que me voltam à mente como lembranças longínquas, pois constituem não somente minha vida mais profunda como também a dos meus amigos.” (“Memórias, Sonhos, Reflexões”  Carl G. Jung — página 21)


    No capítulo “Antes de Tudo Religião” (página 183), Márcio, meu caro confrade, fazes aflorar uma profusão de lembranças que,creio eu, tem ainda hoje o condão de te impulsionar a escrever, escrever e escrever sempre… sobre teu ser em si, como mostra tão bem o parágrafo abaixo:


    A religião foi durante grande parte de minha vida, meu chão, meu norte, minha bússola… A pior coisa que me aconteceu na vida foi ter-me tornado 'ateu'. […] Eu queria transformar o outro (crente) em ateu, justamente porque o 'outro' era meu espelho que refletia o que já fui e ainda o que está bem vivo dentro de mim.”


    Lendo o teu instigante livro, de modo reflexivo, não consegui nas entrelinhas, identificar em ti a ausência desse tal ‘sentimento sublime!” que grupos religiosos banalizaram para interesses mercadológicos. Como escrevi em um artigo nos idos de 2011 a um amigo da blogosfera:


    "embora uma pessoa rejeite toda a crença, dogma e ilusão religiosa, não significa que ela tenha anulado o sentimento nobre de re-ligar-se a um éden utópico”.


    P.S.:


    Mas voltando ao título do teu livro. Usando o simbolismo judaico-cristão do número 40, e à guisa de encaixá-lo dentro de uma metáfora bíblica, penso que não seria tão danoso subtrair cinco dias de tua agonia para denominá-lo de: “40 dias no Vale da Sombra da Morte” ― tema que faria o Eduardo, o Esdras e o J. Lima se esbaldarem em comentários psico-teológicos, como fazíamos naquele saudoso e idílico tempo da C.P.F.G. (rsrs)


    Abçs,


    Levi B. Santos


    Guarabira, 02 de novembro de 2016


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    • Queria falar a respeito do livro do Marcio que estou lendo “45 dias de pânico total”. Primeiramente, quando li o título fiquei com um sentimento ambíguo. “Pánico”, não tem a ver comigo. Hum. “45 dias” não deve ser um livro técnico sobre síndrome do pânico como já estudei na faculdade. Deve ser vivência, deve ser humano, pensei. Isto tem a ver comigo. Comprei e estou lendo. Bom, não me enganei, é humano, e muito, não fala só de pânico e o Márcio relata sua experiência de sofrimento, seus sentimentos, suas sensações, seus pensamentos estando muito mal. Dificil não se identificar. Consegue descrever aquilo que quase todos sentimos sem, muitas vezes, sabermos nem o que é. Enfim, depois eu volto a comentar quando tiver adiantado mais no livro.
    • Muito bom Márcio, muito corajoso.

    Escrito por: Christophe Blondin 

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  • 12/21/16--04:46: 45 DIAS DE PÂNICO TOTAL


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    Grande parte da humanidade acredita em algo maior que ela. Um ser criador. Originador mas que não tem origem, criador mas incriado, Pai, mas que nunca teve mãe Este é Deus. Não vou jamais desistir da hipótese de que Deus é uma criação nossa e que sua palavra sagrada não é, como dizem, algo que parta dele para nós, e sim, algo que parte de nós para ele. Uma carta de amor daquelas que os namorados escrevem, cheias de melosidade, afeto, desejo, isto é a Bíblia, um livro que vem respaldando a crença de muitos ao longo dos milênios. Mas, quando e por que ela surgiu?

    A religião surgiu no mundo em razão das necessidades do homem. As primeiras crenças da humanidade estavam relacionadas, principalmente, à agricultura. O homem sentia a necessidade de prever quando choveriapara que a produção dos alimentos fosse eficiente. Como resultado disso, o homem criou métodos para tentar prever o futuro, como a astrologia, a quiromancia e a necromancia, e também métodos para tentar modificar o futuro, como a magia, a bruxaria e os encantamentos.

    A ideia de Deus esteve, inicialmente, associada aos fenômenos meteorológicos. Assim, surgiram também os conceitos de deuses específicos para determinadas situações vivenciadas pelo homem, como o deus da guerra, da caça e do amor. Assim, podemos entender que a criação da religião aconteceu pela necessidade do homem de compreender ou, pelo menos, tentar explicar alguns fenômenos misteriosos.

    A partir do Cristianismo, o homem passou a acreditar na existência de um Deus semelhante à humanidade. Pela Bíblia, o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus. Em seguida, na evolução do conceito de religião, o homem criou métodos para interagir com Deus, rezar e pedir bençãos e favores. Isso acontece tanto nas aldeias indígenas, quanto nas civilizações urbanas e contemporâneas.

    Com o passar dos anos, a religião começou a se basear em orações e promessas, e a determinar intermediários entre Deus e as pessoas comuns, como os padres, pastores e pais de santo, por exemplo. Hoje, as religiões têm na figura do sacerdote o desafio de converter mais adeptos. Nesse contexto, a utilização de um antagonista de Deus, o chamado demônio, e de um lugar prometido em detrimento de um “inferno” de sofrimento eternotambém serve para encaminhar os fiéis para o caminho da religião, pelo medo. Esta é a realidade para muitos.

    Mas, para poucos, isso tudo não passa de uma grande mentira. Uma história inventada para explicar a origem das coisas, as causas que deram origem aos fenômenos que não entendemos ainda, apenas uma etiologia infantil.

    Ateus normalmente escolhem não acreditar em Deus, é o que dizem os religiosos, pois pessoas que sofreram algum tipo de trauma e por terem fé suficiente ficaram com “raiva”de Deus e que muitos ateus foram molestados quando crianças, ou sofreram maus tratos, muito se sentem a margem da sociedade, sem estudo, sem amor, sem carinho, entregue ao alcoolismo e ao homossexualismo, ou seja, nas garras de satanás. Muitos deles vem de famílias desestruturadas, pobres e sem conhecimento de Jesus.Se um Ateu parar para pensar e colocar a cabeça no lugar um segundo, ele verá que não tem como ele sequer respirar sem Deus existir. Contudo, são pessoas que não tem censo de certo e errado e desafiam a Deus a todo momento.

    Não poderiam estar mais errados!

    Antes de tudo, ser Ateu não é uma opção e sim uma conclusão, uma constatação. Ao contrário do que muitos cristãos costumam afirmar, a gigantesca maioria dos Ateus chegou à conclusão de que “não existem deuses” sozinho, pensando com seus botões, sem que para isso fosse necessário um trauma nas suas vidas ou dificuldades de qualquer tipo.No geral, os Ateus são, em sua maioria, mais “estudados”que os teístas, porém como a quantidade de teístas no mundoé muito maior, as afirmações são contrárias.

    Dificilmente você vê uma pessoa morrendo de fome e que diz “Deus não existe”, normalmente o que é observado é que quanto mais “ignorante”(ou sem instrução) a pessoa é, mais ela tem a tendência em acreditar em mitos e divindades sem provas.

    Antes de serem Ateus, no geral, eles tiveram uma religião e aqui no Brasil a maioria esmagadoradeles era cristão. Logo, a maioria conhece a bíblia, alguns conhecem muito bem, outros conhecem tão pouco quanto a maioria dos cristãos, muitos frequentaram igrejas durante anos a fio e chegaram a inevitável conclusão.Obviamente o ateu não entende de tudo, mas oque um Ateu normalmente entende é que nenhuma prova, amostra ou evidência da existência de algo sobrenatural foi mostrado a ninguém até o momento.Esta é a falsidade para poucos.

    “Enquanto houverem pessoas dispostas a serem dominadas, haverá aqueles que as dominem”, e se partirmos de Maquiavel, perceberemos que nada mudou em seis séculos. O temor a Deus faz-se indispensável pois só assim submete-se quem deve ser dominado e como o mandamento divino é mais eficaz do que a lei humana, a prudência do governante faz-se necessária para que ele possa usar da religião para dar ânimo e dominar o exército, para ser atendido pela plebe.

    Aqui reside uma exigência: para as repúblicas ou príncipes que desejam manter-se sem corrupção, devem zelar para que os cultos religiosos não sejam corrompidos. Caso os cultos se tornem corruptos, aí reside o indício da ruína do Estado. Como toda religião tem como fundamento alguma ordenação principal, o príncipe deve conhecê-la e conservá-la. Se assim o fizer, há de manter a religião e a sua república unida. Caso o príncipe acredite que a religião está inteiramente a seu serviço, há de destruir tanto a religião, quanto a crença que o povo tem nela e verá a ruína de seu próprio Estado pois “não pode haver maior indício da ruína de um estado do que o desprezo pelo culto divino” (MAQUIAVEL, 2007, p.52).

    Nota-se, pois, que se a religião for corrompida, ela perde toda a sua força mobilizadora e, assim, tem-se como consequência a decadência do vivere civile (AMES, 2006.).

    Maquiavel usa seu ato de conduzir o povo romano à obediência civil como exemplo da eficácia do bom uso da religião. Encontrou em Roma um povo indomado e desejou conduzi-los às “artes da paz”. Como alternativa à violência, usou a religião para domar e manter a cidade já que o poder de Deus é mais temido que o do homem. “Estas [“artes da paz”], na passagem da obra maquiaveliana citada acima, não consistem em outra coisa senão na religião, apresentada como instrumento capaz de subtrair sentimento da obrigação política do exclusivo domínio da força, e, por isso mesmo, definida ‘como elemento imprescindível para manter a vida civil’”

    Cabe, então, explicitar os expedientes que fazem a religião se tornar um instrumento cuja produção é a de comportamentos individuais e coletivos úteis POLITICAMENTE. A simulação é um expediente ao qual se recorre quando a autoridade do príncipe não é suficiente para submeter os súditos. Tomemos o exemplo usado por Maquiavel da simulação feita por Numa que, ao perceber que sua autoridade não seria suficiente para fazer suas leis cumpridas, simulou familiaridade com uma Ninfa e agiu como se esta lhe desse conselhos para que ele transmitisse-os ao povo. A verdade da religião não é o mais importante, o que importa é que interpretação da vontade divina seja feita de forma a acarretar o êxito para os propósitos do príncipe, haja vista que estes sempre devem ter como fim o bem comum.

    Traçando um paralelo entre o que Maquiavel escreveu e a realidade brasileira, constatamos que a dominação não cessou ao longo da história. Por exemplo, a controversa escolha do deputado federal Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara não é um fato isolado. Ela expõe a consolidação do poder político das religiões no Brasil, sobretudo da evangélica, que cada vez mais junta forças para impor sua agenda.

    Os parlamentares ligados a instituições religiosas já representam um quinto do Congresso. Em 20 anos, o número de deputados federais e senadores evangélicos mais que triplicou (saltou de 23 em 1990 para 73 em 2010), perdendo hoje só para a bancada ruralista. Com isso, os embates com grupos de direitos civis, pró-liberalização do aborto e das drogas, de direitos humanos e de defesa da laicização do Estado se intensificaram.
    Sob o pretexto de “proteger a família e a vida”, os parlamentares das bancadas católicas (22 congressistas) e evangélicas deixam as diferenças de lado e trabalham juntos para tentar conter o avanço de pautas como aborto, casamento homossexual e liberalização das drogas.
    As alianças formadas pelas bancadas religiosas têm grande poder de ramificação. Como exemplo, a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e Preservação da Família, que une católicos, evangélicos e outros políticos de alguma forma ligados a esses preceitos, conta com 192 parlamentares (40% do Congresso). “Não são somente eles que são conservadores. Eles vocalizam boa parte do que a população brasileira pensa sobre aborto, direitos das mulheres e de homossexuais”, diz Christina Vital, professora de ciências sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF)..
    Frank Usarski, professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que, em comparação com a Alemanha, por exemplo, o pluralismo das forças religiosas é menor no Brasil, porém a influência da religião é maior. “O enraizamento das igrejas na consciência e na realidade social dos brasileiros é maior”, afirma.
    Dessa forma, as religiões ameaçam o Estado laico brasileiro, como alerta o livro Religião e política: uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil. O estudo é de autoria dos pesquisadores Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes. Nele, os autores descrevem o avanço dos evangélicos na política na década de 1980. As igrejas passaram a reivindicar um lugar para si a fim de ampliarem a influência de suas tradições e valores.

    O Brasil se tornou formalmente laico a partir da primeira Constituição Republicana, em 1891, mas a igreja Católica sempre fez esforço ao longo desse período para garantir presença no Estado público. Como exemplo, está a introdução na Constituição de 1934 da obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas brasileiras.  “No Brasil, há uma enorme presença do elemento religioso no espaço público”.
    Lamentavelmente, enquanto a maioria não se interessa pela sua história religiosa, política, científica, geográfica etc, há uma minoria muitíssimo interessada em dominar por meio daquilo que a maioria acredita. Deus.


    Edson Moura

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  • 03/10/17--02:18: Modais Brasileiros

  • O Brasil é um país com dimensões continentais, apresentando uma larga extensão norte-sul, além de uma grande distância no sentido leste-oeste em sua porção setentrional. Por esse motivo, é necessária uma ampla rede articulada que ligue os diferentes pontos do território nacional a fim de propiciar o melhor deslocamento de pessoas e mercadorias.
    Além disso, para que o país possa ampliar as exportações, importações e, principalmente, os investimentos estrangeiros, é necessário que os meios de transporte ofereçam condições para que os empreendedores tanto do meio agrário quanto do meio industrial possam ter condições de exercer suas funções sociais. No Brasil, a estratégia principal foi a de priorizar a estruturação do sistema rodoviário – sobretudo a partir do Governo JK – em detrimento da construção de ferrovias e hidrovias, que só recentemente vêm recebendo maiores investimentos.
     As rodovias no Brasil
    transporte rodoviário no Brasil foi – e ainda é – o meio responsável pela maior parte dos fluxos de bens e pessoas no país, que priorizou a sua construção para favorecer as empresas estrangeiras do setor automobilístico e promover a entrada delas no país. A expectativa era estruturar o modal rodoviário a fim de propiciar a construção de polos industriais de automóveis no Brasil com o objetivo de ampliar a geração de empregos, embora hoje as indústrias desse setor empreguem cada vez menos trabalhadores, em função das novas tecnologias fabris.


    Outra característica da implantação das rodovias no Brasil foi a integração das diferentes partes do território brasileiro, que concentrou seus investimentos nas regiões litorâneas. Esse quadro começou a mudar ao longo do século XX, destacando-se a construção da capital Brasília. Assim, rodovias como Belém-Brasília, Cuiabá-Porto Velho e tantas outras tinham como preocupação estabelecer a ligação entre pontos e localidades até então desconectados.
    A grande crítica a essa dinâmica questiona a opção por rodovias, algo não muito recomendado para países com larga extensão territorial, como o Brasil. Em geral, as estradas costumam ter um custo de manutenção mais elevado do que outros meios de transporte, como o ferroviário e o hidroviário, além de um maior gasto com combustíveis e veículos. Em virtude dos elevados custos e da política neoliberal de redução dos gastos públicos em investimentos estruturais, iniciou-se uma campanha de privatização das rodovias, que encontrou o seu auge na década de 1990, mas que ainda ocorre atualmente através de concessões públicas.
    Apesar disso, a qualidade das rodovias no Brasil é bastante ruim, além da larga quantidade de estradas não pavimentadas. Elas oneram os gastos públicos, que muitas vezes não conseguem atender às necessidades principais, fator que não se modifica nem com as privatizações, uma vez que as concessões costumam ocorrer apenas com as estradas que já estão prontas e estruturadas.

    As ferrovias no Brasil
    transporte ferroviário no Brasil foi predominante até o final do século XIX, quando estruturava os deslocamentos de mercadorias da economia cafeeira, sendo, por essa razão, bastante consolidado na região Sudeste. As ferrovias, apesar dos elevados custos em suas construções, possuem baixos gastos em manutenção, o que não impediu que, de 1950 até os dias atuais, várias delas fossem sucateadas e até desativadas.
    Além disso, existem várias ferrovias no Brasil em construção, mas que as obras encontram-se inacabadas, muito embora os recentes investimentos por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) trabalhem para modificar esse cenário. A principal ferrovia no Brasil em construção é a Ferrovia Norte-Sul, que já possui algumas áreas concluídas e em operação (ou com uso e operação a serem efetuados em breve).


    Após a privatização de boa parte das ferrovias nacionais na década de 1990 e da derrocada da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), empresa estatal responsável por administrá-las, a participação das ferrovias no Brasil até aumentou, apesar de atender interesses e deslocamentos muito específicos e limitados. Ainda hoje, a malha ferroviária nacional concentra-se nas regiões Sul e Sudeste.

    As hidrovias no Brasil



    transporte hidroviário é o que possui a menor representatividade e participação nos sistemas de deslocamento nacional, o que é uma grande contradição, haja vista o grande potencial que o país possui para esse modal. No Brasil, a rede hidroviária é muito ampla e muitos rios são navegáveis sem sequer exigir a construção de grandes empreendimentos e estruturas, como obras de correção e instalação de equipamentos.
    Uma justificativa para a negligência de investimentos nas hidrovias brasileiras é a existência de muitos rios de planalto, que são mais acidentados e exigem mais obras de correção para facilitar o transporte. Os rios de planície, mais facilmente navegáveis, encontram-se em áreas afastadas dos grandes centros econômicos.

    Por outro lado, cita-se a concentração de investimentos em rodovias em áreas onde o mais indicado seria o investimento em hidrovias, cujo exemplo mais notório é o caso da Transamazônica, uma estrada construída quase que paralelamente ao rio Amazonas, de fácil navegação.
    No entanto, a partir dos anos 1980 e sobretudo após a criação do Mercosul, que passou a exigir mais das hidrovias para a integração do Cone Sul, os investimentos públicos nessa área elevaram-se, mas ainda são insuficientes. As principais hidrovias do Brasil são a Tietê-Paraná, a do Rio São Francisco, a do Amazonas, entre outras.

    Em resumo, o que se percebe é que os meios de transporte no Brasil precisam de diversificação para que haja menos dependência das rodovias nos deslocamentos de mercadorias e pessoas. Em geral, é necessária a instalação de uma matriz multimodal, ou seja, com vários sistemas de transportes diferentes integrados. Outra necessidade é uma maior integração rumo ao oeste do país, principalmente em direção aos países sul-americanos e ao Oceano Pacífico, com vistas a ampliar as trocas comerciais dentro do continente e em direção aos países asiáticos.

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    É um texto de desabafo. Em meio a revoltas populares, manifestações e paralisações que via de regra, impedem que outros cidadãos exerçam seu direito fundamental de locomoção, acabo por me surpreender com um amigo que, contra tudo e contra todos, resolveu remar contra a maré, um típico Pensador Fora da Gaiola, um educador, formador de opiniões, um professor por excelência. Aldim, este artigo, pouco didático e muito mais explicativo é pra você.

    No último exame do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, sigla em inglês) que é realizado pelo OCDE (Organização para Cooperação e desenvolvimento econômico) que avalia os estudantes dos países-membros da OCDE e convidados, e três áreas fundamentais, conhecimentos de matemática, de Ciências e de Línguas (obviamente a língua materna do estudante, portanto, compreensão e regras de funcionamentos da língua), na última edição de 2012, dos 65 países avaliados o Brasil estava na posição 59ª, ou seja, posição cinquenta e nove de sessenta e cinco, o Brasil agora, conseguiu piorar aquilo que já era ruim. Na última edição agora, divulgada no final de 2016, de 65 países, o Brasil alcançou a posição de 63ª, olhem o absurdo, só dois países avaliados tiveram posição pior do que a nossa.

    O jornalista Ricardo Boechat, por quem confesso que nutro uma grande admiração, pela clarividência de suas palavras, pela análise crítica e pela pessoa inteligente que é, há algum tempo fez uma crônica que eu achei perfeita, ele disse o seguinte: […quando nós não temos como prioridade a saúde pública e a segurança pública, que para mim são duas áreas prioritárias e para ele também, você acaba matando o presente do país, porque são os nossos concidadãos que vão padecer nas unidades de pronto atendimento, nas unidades de urgência, nas unidades hospitalares, ou que estão submetidos a toda ordem de violências nas nossas ruas …]. Portanto, tanto pra mim, quanto para ele, saúde e segurança são prioridades máximas de um estado democrático de direito, de um estado civilizatório.

    No entanto, segundo a avaliação que ele faz (e eu acho corretíssima) quando você tem uma saúde pública e uma segurança pública, precárias, que não são tratadas pelas nossas elites como prioridade (até porque as nossas elites têm planos de saúde, segurança particular em seus condomínios fechados, carros blindados etc.) você mata o presente do país, porém, a educação, ou melhor, a falta dela, mata o nosso futuro.

    O que a gente sabe, é que a elite dirigente brasileira, os extratos sociais mais abonados, a educação para eles, via de regra, não é um problema, por que convenhamos, eles estudam nas melhores escolas particulares, vão cursar universidades públicas porque têm uma qualidade de Ensino Fundamental e Médio boa, que lhe garantem uma aprovação para uma universidade pública, ou vão estudar em excelentes universidades privadas, dentro e fora do país. Portanto, a educação para essa elite é uma preocupação, mas não é um dado grave.

    No entanto, para a população mais pobre essa educação é absolutamente essencial. Eu estava ainda a pouco conversando com esse meu amigo Aldim e explicando que a população mais pobre tem pouquíssimas alternativas de mobilidade social. Ou você tem um talento muito especial para os esportes, e aí estamos falando de esportes de alto rendimento e que seja bem remunerado como o futebol, ou você tem um talento muito significativo para a música ou outras áreas congêneres, ou a terceira grande alternativa para a população pobre ascender socialmente é via educação, e acredite, para mim, a educação é uma prioridade da população brasileira. Em todas as pesquisas a população coloca a saúde, segurança pública e educação como elementos-chave para a mobilidade social e qualidade de vida. Todavia, lamento dizer, essa mesma educação não é prioridade no Estado Brasileiro, e observem que o Estado brasileiro é comandado por uma elite econômica e política que também não tem na educação algo que seja prioridade. Por exemplo:

    O Brasil fala em Lei de responsabilidade fiscal (que eu concordo, é necessária, é possível e é urgente que se faça), no entanto, o senador Cristóvão Buarque propôs uma Lei de responsabilidade Educacional, onde Municípios, Estados e União se comprometem com parâmetros objetivos de melhoria de qualidade de educação, agora, perguntem-me quando que uma Lei dessas passa no parlamento brasileiro? Eu mesmo respondo: Nunca!!! Porque os políticos não querem se comprometer com parâmetros objetivos mensuráveis a respeito da melhoria da qualidade da educação no país. E aí o Brasil vai amargando, ano após ano, resultado pífio na educação, quando na verdade, não existe nenhuma receita de bolo pronta que possa ser aplicada a todos os casos.

    Mas, via de regra, a maioria dos especialistas e outros que se dedicam a refletir sobre o caso (creio que o Aldim é um desses) costumamos eleger cinco elementos-chave, que não são nada extraordinários, mas que são condição sine qua non de embasamento de uma boa educação.

    1º Um professor bem formado é um elemento-chave. Pesquisa recente realizada por uma universidade Australiana mostra que a maior diferença no processo de “ensino-aprendizagem” quem faz é o professor. Não e a metodologia de ensino, não é a escola, não e laboratório, não é equipamento… é o professor. Então, ter um professor bem formado é uma condição essencial. Por outro lado, significa dizer que deve existir um plano de carreira bem estruturado e que seja atraente. Hoje no Brasil, apenas 2% dos estudantes querem ser professores. Na Coreia do Sul, onde o plano de carreira é atraente e os salários altos, 30% dos estudantes querem ser professores. Sendo assim, sem ter um professor bem formado, bem remunerado e com uma carreira atraente e estruturada, nós vamos continuar amargando o mesmo problema.

    2º Precisamos ter um aluno que tome consciência de que o processo de “ensino-aprendizagem” é o seu passaporte para a mobilidade social.

    3º Precisamos ter uma família que entenda que o processo de “ensino-aprendizagem” não é feito a duas mãos, as do professor, ela é feita no mínimo a seis mãos, as do professor, as do aluno e as mãos dos pais. Educar dá trabalho? Dá! Indiscutivelmente, dá trabalho, mas isso é algo que os pais escolheram quando decidiram ter filhos, então, participar deste processo, não deve ser só uma obrigação, deve ser acima de tudo uma alegria poder contribuir com o crescimento intelectual dos filhos.

    4º Nós precisamos ter uma política de Estado na educação brasileira, e não apenas uma política de governo, porque a cada governo mudam-se todas as prioridades.

    5º Precisamos ter uma infraestrutura básica de educação. Não precisamos ter um laboratório de primeira geração ultramoderno, mas precisamos ter uma escola que ofereça um mínimo de conforto e instalações adequadas para que a produção e a transmissão de conhecimento se dê de maneira adequada. Sem isso, a gente vai continuar amargando os piores indicadores da educação, matando o futuro de nosso amado país, e ouso dizer, com essa classe política que nós temos hoje, talvez este seja o desejo mais profundo que eles tenham, um povo sem educação que não sabe hoje e provavelmente não saberá no futuro, lutar pelos seus direitos.

    Edson Moura



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    Tem tanta coisa no Brasil não é Turminha da CPFG
    (Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola)? Tem carnaval, Páscoa, Natal, Copa do Mundo e Olim-píadas, Tem pão e tem circo. Mas ultimamente temos:

    Carne podre, tem a mídia burra e irresponsável que diz que ácido ascórbico é cancerígeno, tem papelão no frango, tem mercúrio no peixe, tem picanha vencida, tem linguiça feita com carcaça de frango, tem agrotóxico proibido nas verduras,   tem coliformes fecais na água, tem soda cáustica no leite, tem milho transgênico na cerveja e até pombinhas, tem óleo de soja no azeite “extra-virgem”, tem cevada no café, Tem carro zero que custa 4 vezes mais que em qualquer lugar do mundo, tem propinoduto, tem mensalão, tem rede 3G que nao funciona, tem o iPhone mais caro do mundo, tem analfabeto legislando, tem merenda escolar roubada....

    Não acabou ainda. Tem mais!


    Tem água de poço engarrafada, tem botijão a gás com menos volume do que informa, tem medicamento genérico sem controle de qualidade, tem controle de qualidade genérico, ôh se tem. Tem airbag que não abre, tem recall de automóveis mal feitos, tem bomba de combustível fraudada, tem gasolina cara mas também tem gasolina adulterada, tem máquina de cartão de crédito grampeada, tem cartão de crédito clonado, tem SMS do Ceará informando que você acaba de ganhar uma casa do Faustão naquele sorteio feito na penitenciária de Fortaleza, tem uso de celular na cadeia, tem médico que falta no emprego e outros que nem médico são, mas também faltam no emprego, tem superfaturamento nas obras públicas, tem obras públicas inacabadas, tem papel colado na placa do carro para burlar o rodízio, Tem condutor que não conduzia sendo indicado como condutor do dia da multa, tem apressados andando pelo acostamento para escapar do trânsito, tem DVD pirata que alimenta o crime-organizado, tem imposto legalmente pago que alimenta também, tem empregado processando patrão para extorquir dinheiro...

    Não acabei!

    Tem empregador que não respeita o funcionário, tem saques em lojas na greve da polícia, tem juiz que não respeita as regras de convivência comuns, tem saque de carga de caminhões acidentados, tem goleiro Bruno libertado, já empregado e dando autógrafos, tem desrespeito à cancela do pedágio, tem desrespeito às vagas de estacionamento, tem quadrilhas travestidas de partidos políticos, tem o bandido que manda na polícia, tem a suprema corte incompetente e corrupta, tem aquele que atropela e foge, tem o Estado que tenta atrapalhar a tua vida, tem o Estado que te rouba, tem o Estado que exige coisas que ele mesmo não cumpre, tem a falta de profissionalismo, tem o parasitismo, tem a falta de seriedade e comprometimento, tem falência ética da classe política, tem falência ética de funcionários públicos, tem falência ética do cidadão comum que compra celular roubado, bicicleta roubada, eletrodomésticos roubados, peças de carro roubadas, gato na luz, gato na água, gato na NET, tem o troco a mais não devolvido, tem a carteira achada não devolvida, tem de tudo neste território de corruptos, que insistem em chamar de país...

    Será isto uma farsa?

    Ou a farsa somos nós?

    Você ainda acha que o problema é a carne adulterada?

    O problema é o CARÁTER sistemicamente adulterado.

     Qual vai ser o próximo escândalo??

    “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

    Ruy Barbosa

    Recebido no Whats, copiado, adaptado e modificado por 

    Edson Moura.

    (São Paulo, 23/03/2017 às 10:24)

    Um cidadão

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    Há momentos, momentos terríveis na depressão, no seu estado mais profundo, mais dilacerador, que precisamos acreditar contra nossa própria vontade, mesmo não acreditando, ou mesmo não podendo acreditar, no sentido de não conseguir acreditar, que vamos conseguir sair do abismo da depressão, nem que tenhamos que subir escalando com nossas próprias mãos, ainda que estas venham "sangrar".

    E antes que alguém me diga: "Márcio, você é um dos muitos que tem por ai, que só sabe sobre depressão através dos inúmeros livros que leu na faculdade", respondo: não, infelizmente eu já tive a depressão em seu estado mais desumano; mais sofrível; mais avassalador; mais devastador; mais profundo - não me orgulho disso, mas também, não me envergonho: é algo do humano com o qual tenho aprendido a lidar.

    E como fiz para sair dela? Acreditando contra todas as possibilidades; contra todas as circunstancias; contra todas as forças desse demônio devastador que é a depressão, que suga suas forças, suas energias, sua potência, seu intelecto, sua fé, sua esperança. Que te joga no mais profundo abismo, e ainda por cima, te enterra vivo, jogando terra sobre você, tentando te fechar pra nunca mais você sair de lá... ao menos sair VIVO.

    Por isso que escrevi o que escrevi e como escrevi, relatando toda minha experiência com esse demônio que é a depressão em um livro: para que eu mesmo acreditasse, forçasse-me a acreditar, que iria sair do abismo... que iria não: que precisava sair do abismo!! Que tinha que sair do abismo!! Pela minha família! Pelos meus amigos! Pelos meus (dois) filhos!! Principalmente: por mim!!!

    E que deixasse registrado se algum dia a escuridão da depressão voltar a tomar conta da minha alma, eu tenha a mim mesmo como testemunha de que, é possível lutar e sair vivo dessa experiência terrível.

    Esqueça formulas prontas, receitas mágicas, conselhos salvadores: é preciso atravessar "o vale da sombra e da morte". Não tem segredos. Não há alternativa. Não há como fugir. Não há como escapar. A depressão mais profunda - chamada na psiquiatria de "Depressão Maior", justamente pela sua intensidade, duração e prejuízos (os piores) que traz pra vida psicossocial e afetiva - não é um abismo que tem como evitar, pois este abismo se localiza DENTRO de você.

    Aonde você vai, carrega consigo esse abismo, esse buraco na alma, um pedaço que arrancaram de você e que agora você caminha com esse buraco faltante na alma pelos caminhos da vida. E tudo que você faz, tudo que você busca, tudo que você tenta, simplesmente não enche esse buraco.

    Você caminha entre os vivos, como se já estivesse morto; como se não mais pertencesse a realidade do mundo dos vivos; você não mais compartilha das mesmas preocupações, objetivos, atividades e alegrias que os vivos; e o pior é justamente essa sensação de estranhamento do mundo, de si mesmo com relação às pessoas a sua volta e até com você mesmo.

    Você as vê nas suas mais variáveis rotinas; em seus mais variáveis projetos; realizando diversas atividades; e simplesmente não entende: "Por que o mundo não sente o que eu sinto? Por que o mundo não enxerga o que eu vejo? Por que o mundo ta rindo, se divertindo, se alegrando? Por que as pessoas estão correndo de um lado para outro? Por que as pessoas insistem em continuar fazendo as coisas que fazem? Por que as pessoas continuam vivas? Por que MEU DEUS ELAS INSISTEM EM VIVER?”.

    E sabe o que você recebe como resposta? O silêncio; o vazio; a falta de sentido; o absurdo que é o mundo, que é a vida, que são os relacionamentos, as atividades, as rotinas, a própria existência.

    Mas, a próxima pergunta a ser feita é a mais importante que precisa ser respondida, e talvez por isso, a mais difícil: "será que o mundo todo enlouqueceu ou fui eu que realmente estou vendo o mundo do seu lado avesso?".

    Por isso você precisa querer crer... não! Você primeiro e antes de tudo tem que QUERER QUERER crer. Não escrevi errado, foi isso mesmo que você leu!

    QUERER QUERER é o primeiro e decisivo passo, donde todas as demais coisas (tratamento psicológico, tratamento psiquiátrico, apoio incondicional da família e dos amigos) dependem. Se você não QUERER QUERER acreditar, não adianta o papa sair do vaticano pra vir te socorrer, Jesus Cristo descer dos céus pra te ajudar: você não sairá do abismo que a depressão instalou em você - ou será que o abismo, na sua forma de desamparo, de angústia, de absurdidade que é o mundo, sempre esteve, e nesse caso está, dentro de cada um de nós? A diferença é que a pessoa com depressão toma real consciência da profundidade desse abismo?

    Ou será (Novamente) que a depressão não é uma resposta da consciência que se percebe mergulhada na falta gritante de sentido, de qual a alma é esmagada com o peso da solidão, do desamparo, do deserto que a alma tem que atravessar?

    Enfim, se a péssima notícia é que a depressão está em você, a boa noticia (se é que é boa) é que os recursos para superar essa depressão também estão em você: em dar o primeiro e mais importante passo: de querer querer acreditar e do QUERER QUERER ser, permitindo ser, ajudado.

    Termino esse meu texto (longo sei, mas necessário) dizendo que pelo amor de Deus, você que não tem e que nunca teve depressão, mas que tem um parente na família, um amigo, ou até filho, esposa ou esposo, mãe, pai, irmão, até mesmo um vizinho, ou colega de trabalho, ou conhecido, não vá "compartilhar" esse meu texto com a pessoa, dizendo "tá vendo só fulano, você precisa sair dessa... para com isso, chega de depressão, levanta e sai dessa", não cometa essa injustiça, essa loucura, pois a pessoa que se encontra com depressão, não pediu para estar deprimida, não buscou a depressão, não disse algo parecido com "vem depressão, vem ne mim, que eu to afim de ficar deprimida", pois ninguém em sã consciência deseja, busca ou quer ficar na fossa da lama que é a depressão.

    Depressão é algo que "acontece" e que pode "acontecer" com qualquer um, independe de raça, cor, crédulo, religião, status social e econômico. Por isso disse que é a pessoa que está com depressão é que precisa por ela, através dela, num pacto com ela mesma, QUERER QUERER acreditar que sim, que é possível, senão "curar" o abismo dentro dela, ao menos conviver com ele, dia após dia, numa luta inglória e sangrenta, numa batalha travada pela própria sobrevivência, de resistência frente ao rolo esmagador da depressão.

    Escrito por mim, Marcio Alves, hoje psicólogo, escritor do livro “45 Dias de Pânico Total!”, pai de Alexandre e Nicolas, que ressurgiu das cinzas do inferno da Depressão e do Transtorno de Pânico, pra contar minha própria história, sem florear ou dourar a pílula do Demônio da Depressão.

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    *Foto do ônibus não é ilustrativa: é real. Foi o acidente que eu escapei.

    Acabei de escapar ileso de um acidente: estava dentro do ônibus da viação Águia Branca, que voltava as 23h30, de Vitória à Ponto Belo, Espírito Santo, que bateu em um caminhão de boi, ferindo sete pessoas, três em estado grave, entre Colatina e São Domingos, por volta das três horas da madrugada de hoje.


    A frase mais ouvida por mim foi a de que “Deus me livrou”. Mas hipótese que já descartei, com o seguinte (corajoso) questionamento: o que tinha em mim de diferente dessas sete vitimas, que fez Deus me livrar e a elas não?


    Minha solidariedade e humanidade me faz posicionar ao lado das vitimas: não consigo conceber um Deus justo e bom, que em um mesmo acidente, livra alguns (eu) para deixar outros (sete) a mercê de seu próprio destino, ou, (o que é terrivelmente pior): determina quais se salvarão e quais se acidentarão.  


    Sou muito humano para aceitar tal ideia (popular) de Deus (que faz distinção para livrar) e um pouco inteligente para aceitar tal explicação “milagrosa” do meu livramento. 

    Prefiro tatear explicações mais, digamos, humanas e corajosas: por causa de alguns fatores controláveis e planejáveis, e outros, por mera “sorte”, escapei ileso.


    Primeiro: toda vez que viajo, sempre prefiro poltronas que ficam do meio para o fim do ônibus: sempre me ocorreu a possibilidade de um acidente onde os primeiros da frente serão (obviamente) os primeiros atingidos, caso o ônibus bata de “frente”; e, sentar antes do final, para se caso baterem na traseira do ônibus, não ser o primeiro dos últimos a ser atingido.


    Segundo: sempre uso cinto de segurança, pois isso se não ajudar na hora de um acidente mais grave, mal não vai fazer, além de muitas estatísticas mostrarem que o cinto pode literalmente salvar uma vida em acidentes.


    Terceiro: contar com a sorte mesmo. Eu não escrevi errado. Escrevi sorte, porque quero dizer sorte mesmo. Se existe acidente para o mal, no caso do azar, do famoso estar na hora e lugar errado, existe também, o acidente para o bem: de não estar na hora e lugar errado.


    O que quero dizer é que graças a fatores controláveis, como os que citei, e os que não estão em nosso controle (você estar dentro de um avião, por exemplo, que cai e mata todo mundo), é que podemos falar sempre em probabilidades e possibilidades, mas nunca de certezas.


    O que significa dizer que o que aprendi é o que já sei, mas que foi reforçado: tome todos os cuidados necessários que estejam em seu alcance, mas saiba que a vida é como uma roleta russa: a qualquer momento podemos não escapar de um acidente.


    Mas enquanto isso não chega, sou grato a Deus só pelo fato dEle não intervir nos acidentes, seja para bem, seja para o mal, porque afinal, um Deus universal, que não livra, mas que também não "permite" (leia-se "provoca") acidentes, é muito mais humano e justo, do que um Deus que livra "pela metade" (incompetência?) ou em "partes" (o famoso Deus me livrou de morrer, mas não me livrou de sofrer um acidente grave e parar num hospital).


    Marcio Alves

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    Quase três horas da madrugada. Tudo em silêncio e na mais perfeita calmaria e paz. Dormia um sono profundo. Profundo não, porque quem é que pode dormir bem numa poltrona que é desconfortável como as que são de um ônibus, ainda mais de que é convencional?

    DE REPENTE: o impacto e o barulho da batida do ônibus no caminhão de boi... estilhaços de vidro voando no meu rosto (isso, porque estava sentado na poltrona 35, do meio para o final do ônibus)... uma gritaria e muito choro, misturados com vozes de crianças, jovens, adultos e idosos... e ainda por cima, a luz do ônibus que permaneceu apagada por eternos segundos: meu Deus o que está acontecendo?

    Gritos de “para motorista, para o ônibus!” e de “quebra a janela gente!” e de “me ajuda eu quero sair daqui!”, junto com “gente, parece que tem gente morta aqui na frente”, meu Deus, o que será tudo isso afinal?

    Quando a luz do ônibus finalmente é acessa; quando o ônibus finalmente para; continuo sem entender o que houve... porque todos estão de pé? Que confusão é esta?
    E o ônibus, para ajudar, veio lotado. Das 45 (acho que é isso) vagas, 44 estavam sendo usados, por crianças, jovens, adultos e idosos.

    O que não entendo meu Deus do céu é porque a galera do inicio do ônibus ao invés de descer pela porta da frente, estão todos vindo para o meio, na minha direção: o que houve com a porta? Será que o estilhaço foi da porta e não das janelas?

    Um grupo de homens estão tentando abrir as janelas de emergência, e eu aqui, paralisado, sentido uma mistura de terror e pânico, com uma sensação de confusão e desorientação... mas também, como poderia ser diferente, se estava dormindo e sou acordado da pior maneira possível?

    Gritos de uma mulher pedindo, melhor dizendo: pedindo não, implorando que “pelo amor de Deus me ajudem! Ai que dor! Socorro!” me deixam mais ainda em estado de profundo choque.

    Finalmente a janela de emergência é aberta... todos querem descer de uma vez, mas não é possível, por causa dos bancos que atrapalham  descer. Pedidos de mães desesperadas, para que tirem suas crianças. No meio de tudo isso, alguém diz “pera ai gente, que o ônibus parou e não tem mais nada que ameace a gente” ao que outro retruca “precisamos sair logo, porque o ônibus não está com o pisca alerta ligado, vai que um caminhão ou carro vem e bate atrás do ônibus?”, foi o suficiente para começar a correria e gritaria de novo para descer.

    Quanto a mim, fiquei tão em choque, que demorei para sair. E quando saí do ônibus, foi porque o que estava na minha frente era mais desesperador do que meu próprio choque: pessoas presas com uma lasca de madeira enorme do caminhão, nas pernas, gritando desesperadas e gemendo de dor.

    Tentar ajudar a socorrer as vitimas? Mesmo se tivesse como, isso estava naquele momento de estado de choque, para além dos meus limites: tenho vergonha, mas não pude nem tentar ajudar do lado de dentro as vitimas. Alias: essa cena foi até mais forte do que minha própria paralisação e estupor, fazendo com que, conseguisse enfim, me mexer e sair do ônibus.

    Lá fora, todos tentando entender o que aconteceu. Todos em estado de choque. A diferença entre um e outro é que enquanto uns ficavam paralisados em choque (eu), outros usavam esse choque, essa adrenalina para agir.

    E agir como? Tentando tirar a lasca pesada e grande de madeira cravada na frente do ônibus e nas pernas das pessoas.
    Foi ai que chegaram as primeiras das três viaturas de polícia, e duas ou três ambulâncias, mas, que, nada ainda do corpo de bombeiros.

    Muita luz, muita sirene, muito corre corre: o desespero ainda não acabou. Tem gente presa nas ferragens.

    E para aumentar ainda mais a tensão e subir o nível de estresse, um bate-boca: de um lado (a maioria) não querendo esperar o corpo de bombeiros chegar, propunham agir o mais rápido possível; do outro, alguém diz para a turma que é preciso esperar justamente o corpo de bombeiros, pois eles são os técnicos responsáveis e mais capacitados para retirarem a lasca enorme de madeira, chegando ao ponto de argumentar, que se alguém mexesse e desse algo errado, seria responsabilizado pelo erro, ao que alguém já no seu limite responde com a ideia de ninguém mexer, mas se alguém por isso morrer, tal pessoa que levantou o argumento anterior, para que ninguém mexesse, seria responsabilizado.

    E eu, lá, parado, flutuando no meu estupor e no meu estado de choque, pensando como seria mil vezes mais terrível, se tivesse como meus dois filhos (um de 4 anos, e outro, de 10 anos), quando alguém no meio dos passageiros me reconheceu: um rapaz que trabalha na Promotoria de Mucurici-ES, aonde, por causa do meu trabalho no CREAS, que só trabalha com direitos violados e por isso, diretamente com promotor e juiz, me reconheceu e começou a falar alto “gente, ele é psicólogo, ele pode ajudar”.

    Pera ai: como assim eu sou psicólogo e posso ajudar? Eu é que quero saber quem é que vai me ajudar e me socorrer desse estado de choque... imagina então eu nesse momento conseguir ajudar alguém.

    Mas quando estava terminando de pensar esse pensamento, alguém chega pra mim e pergunta se sou mesmo psicólogo. Minha vontade era de negar, de cavar um buraco na terra e me esconder, mas naquele momento, começou a agir em mim, outras forças, que não apenas a paralisia, eram: o dever, a consciência e a ética de ajudar, minimamente é verdade, mas que nem por isso deixaria de ser algum tipo de ajuda, de algo pequeno para aquele momento, que eu poderia ofertar a quem estava, assim como eu, muito angustiado e meio atônito.

    Só ai e que comecei a usar a adrenalina que tinha se espelhado no meu corpo, por causa do choque emocional do acidente, para ir até as pessoas que queriam e sentiam necessidade de um atendimento emergencial psicológico.

    E que bom foi para algumas pessoas e para mim: ao ajudar elas, estava, sem ainda, naquele momento, me dar conta, de que estava me ajudando a sair um pouco de mim mesmo, dos meus sentimentos, sensações e pensamentos, para ajudar quem precisava muito de mim.

    Depois de umas duas horas, tudo estava resolvido (a ambulância levou os mais gravemente feridos a um hospital perto do acidente; a polícia prendeu em fragrante o motorista completamente alcoolizado que deixou o caminhão de carregar boi, entre o encostamento e a pista, parado; e nós embarcávamos em outro ônibus (executivo) disponibilizado pela Águia Branca)... quer dizer: nem tudo, já que as marcas do acidente, se em algumas foram mais graves fisicamente, em outras (como eu) ficaram como profundas marcas psicológicas.

    Marcio Alves